Sobre o tema da aula:
Em nossa primeira aula exploramos alguns sons que as crianças podem reconhecer e fazer a partir do seu próprio corpo. Essa vivência proporciona uma experiência sonora próxima e marcante, já que mesmo o bebê mais tenro é capaz de produzir barulhinhos. Antes dos três meses, o bebê já é capaz de usar alguns desses sons conscientemente para se comunicar. A partir daí, o interesse por vocalizar e provocar novos sons é crescente, e é com esse rudimento de linguagem que ele também manifesta suas primeiras expressões melódicas, ainda que ainda não tenham um sentido musical, com a compreensão estrita de música que nós, adultos, temos. Dos seis meses em diante, o bebê pode começar a explorar mais detidamente elementos sonoros, analisar e até mesmo reproduzir esses elementos, e.. compor! Quanto mais estímulos sonoros forem lhe dados, quanto mais eles forem incentivados a descobrir e produzir sons, mais seu pequeno cérebro vai criar caminhos de inteligência e sensibilidade que ele poderá levar por toda a vida.
Como foi?
Após a música do bom dia, cantamos com uma música de "palminhas". Cantamos em seguida uma cantiga popular que incentiva os gestos sonoros faciais:
"Nhé, hum
Fez um dia um sapinho pra mim (3x)
E seus olhinhos fazem nhé, nhé, hum!"
Ao fazer "Nhé", estira-se a língua e fecha-se os olhos. Ao fazer "Hum", arregala-se os olhos e faz-se um bico. Bebês são muito atentos as expressões faciais dos adultos, e gostam de imitá-las. Por vezes são capazes de passar muito tempo só olhando e explorando cada cantinho do nosso rosto. Depois, nós os pegamos tentanto imitar nossa forma de sorrir, abrir a boca, conversar... e cantar.O rosto de pais, mães e cuidadores é uma fonte rica de aprendizado e alegria para eles.
Outra canção gestual que exploramos foi a do calango. Essa foi uma das preferidas das crianças! O que uma meia velha pintada de verde pode fazer, não?
"O calango faz assim (balançar a cabeça para frente)
quando diz sim (bis)
Mas não é nenhum bobão (balançar a cabeça par ao lado)
Também diz não (bis)"
Cantamos várias vezes, primeiro para as crianças visuzlizarem os movimentos, depois para imitá-los.
A hora da história foi sobre uma menina que sabia fazer barulhinhos com o corpo todo: bater palmas, pés, estourar bochechas, dar beijinhos, falar com voz fininha e grossa, bater palmas nas coxas, cantar, e até soltar um pum! (Livro "Barulhinhos do corpo", de Elvira Drummond, da série Descobrindo sons, vol. 01). Logo após a hitória veio o jogo sonoro de identificar e tentar reproduzir os barulhinhos escutados durante ela.
A canção de movimento colocou a turminha para pular, explorando os conceitos de dentro e fora. No caso específico dos bebês, o "dentro" era no colo da professora/auxiliar, e o "fora", logo à frente delas. No caso do Infantil I, utilizamos o tapete para delimitar o dentro e o fora. Esses conceitos, que parecem tão simples, são fundamentais para desenvolver o raciocínio lógico-matemático.
A seguir, a canção de percussão corporal pedia:
"Quem sabe fazer comigo assim: (gesto sonoro escolhido pela professora)
assim, assim
quem quiser aprender olher pra mim."
Esses gestos podem ser palmas, beijos, batidas de pés, estalos com a língua e até o "besourinhos" que os bebês apreciam tanto fazer. Todos os adutlos (auxiliares) presentes devem ser incentivados a fazer os gestos também.
Na hora da parlenda utilizamos uma pequena maraca para marcar o pulso:
"Lé com lé, cré com cré (separando e juntando os pés)
um sapato em cada pé
Lé com lé, cré com cré
tem cheirinho de chulé!" (Dar uma batindinha com a maraca, bem de leve, no pezinho da criança)
A música para apreciação da aula, foi a dança alemã, de Tchaikovsky. Fizemos um grande desfile, com as auziliares marchando e dançando no ritmo sugerido pela música. Revezamos as crianças e todas participaram, foi bem divertido!
A canção socializadora foi um jogo de mostrar e esconder as mãozinhas. Para tornar a brincadeira ainda mais legal, coloquei pulserias de guizos em todos os alunos.
Depois brincamos com o martelo sonoro numa música bem sugestiva:
"Toc, toc, toc, bate lá na frente
Toc, toc, toc, corro bem contente
Toc, toc, toc
Bate na cozinha
Toc, toc toc
É minha madrinha"
A princípio o bebê pode não seguir as células rítmicas selecionadas, se preocupando apenas em bater os martelos de qualquer jeito noc hão. É normal, pois ele está se habituando ao novo brinquedo. Mas imponha a marcação do rítmo, batendo fortemente (mas sem assustar) nos tempos certos. Com 8 meses o bebê já é capaz de imitar um gesto percussivo simples.
Concluímos nossa aula com a canção do relaxamento e da despedida.
Dica para os pais
Pesquisas demonstram que para uma música ser bem fixada na mente da criança ela tem que ser ouvida pelo menos três vezes ao dia, durante uma semana. O nome da música e do compositor também devem sempre ser anunciados. Ouvindo passivamente ou dançando, cantarolando, brincando, o importante é que a música seja um momento de prazer. Colocarei aqui, a cada aula, uma música que trabalhamos em sala de aula para ser companhia para você e seu filho em casa, no carro, durante as brincadeiras, no computador... escute, perceba detalhes, preste atenção na reação dele, e curta esse momento com seu filho!
Canção alemã - Tchaikovsky
Dica para os professores
Desde a primeira aula, ensine as crianças que há o momento de pegar e o momento de guardar os instrumentos. Procure não "tomar a força" nenhum objeto para não provocar choro. Peça gentilmente que guardem o obeto, colocando a caixa ou sacola bem na frente delas. À medida que forem vendo os outros guardando, elas vão guardar também, sem precisar que você tire o objeto da sua mão. Isso vai se tornar uma rotina em pouco tempo, e elas mesmas vão procurar a caixa ou sacola par aguardar tão logo percam o interesse no objeto. Esteja atento: quando fizerem isso é sinal que a atividade já se tornou cansativa, e mesmo que você não tenha terminado ainda, dê uma jeitinho de concluir depressa e passar para a próxima atividade a fim de não perder a atenção e interesse delas pela aula. Procure manter o envolvimento o tempo todo. E ensine-as a serem organizadas observando sua organização. A rotina e seus gestos de entrada e saída dão segurança e incentivam a autonomia em bebês e crianças pequenas.
Se por acaso uma criança resistir bastante a devovler o objeto, argumente que você vai mostrar outra coisa em seguida, que depois ela vai brincar de novo. Se ainda assim não adiantar, tente substituir o objeto sonoro por um que não faça barulho e seja pequeno e discreto, para não desviar a atenção de outras crianças. Tenha à mão, por exemplo, bichinhos de feltro ou EVA. para essas ocasiões. Mas tenha certeza que essas resistências serão cada vez mais raras.
(Plano de aula adaptado do livro "Descobrindo Sons", de Elvira Drummond, vol. 01)
Modo de usar:
.......................................Espaço de Educação Musical para pais, alunos, amigos e colegas de profissão da professora Luciana.
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
O que é Musicalização Infantil?
A primeira tarefa de um professor de Música que atua com crianças e deixar conhecer o significado de seu trabalho. Aulas de música para crianças - também conhecidas como "musicalização infantil" - são algo novo no no universo pedagógico brasileiro. E somente agora, depois da lei 11.769/2008, que torna obrigatório o ensino de Música como componente curricular nas escolas de Educação Básica (Educação Infantil e Ensino Fundamental), é que muitas pessoas começam a se questionar sobre o que é e como deve ser realizada a musicalização infantil.
Vejamos um breve resumo com as fases pelas quais passou o ensino de música para crianças no Brasil:
- FASE I - Século XVI
Os jesuítas foram os primeiros profesores de música do Brasil. Eles utilizavam a música religiosa e o canto como forma de catequizar os índios e implantar aqui a cultura européia. Usavam músicas simples, e as crianças eram seu "alvo" preferido, pois eram ainda pessoas em formação, portanto mais flexíveis e menos críticas para aceitar aquela nova cultura.
- FASE II - Século XIX
Com a vinda de D. João VI para o Brasil, vieram também vários músicos para compor a corte do rei. A música era encarada como um ofício, que era transmitido de forma individual, do mestre ao discípulo, e tinha basicamente a função de entreter e de ornamentar as cerimônias religiosas. Em 1841 foi fundado o primeiro conservatório musical do Brasil. Conservatórios são escolas especializadas em formar músicos. Isso não era encarado como assunto de criança. E as aulas eram feitas nos moldes dos conservatórios europeus, reproduzindo a cultura de lá como a mais certa e a mais bonita.
- FASE III - Início do século XX
Começaram a regular o ensino de música no país através de leis e decretos. Mas não havia consenso: cada estado tinha sua própria legislação e exigências. Nessa época muitas mulheres buscavam estudar música como forma de se mostrar "bem educadas" e dignas de um bom casamento. Uma moça que tocasse piano era muito bem vista nos saraus então em moda. Nas escolas o ensino da música era feito através, principalmente, de manuais de teoria musical que reproduziam os livros europeus em seu conteúdo e forma, com prática de solfejo e outros assuntos bem técnicos. Não era exatamente algo divertido de fazer.
- FASE IV - 1920 - 40
Esse período é conhecimento como o período do "entusiasmo pela educação". É quando surge a musicalização infantil, e os educadores da área começam a pensar novas maneiras de ensinar música, mais efetivas, que tivessem mais a ver com a nova pedagogia infantil. Villa-Lobos era quem encabeçava um forte e organizado movimento de pensadores da Educação e Cultura musical no país. O canto orfeônico (hoje mais conhecido como canto coral) foi bastante explorado e incentivado. Faziam-se grandes festivais onde os coros das escolas se apresentavam, geralmente cantando músicas cheias de sentimento cívico. Esse movimento foi tão efetivo que até hoje muitas pessoas associam imediatamente "ensino de música" com "canto coral".
- FASE V - 1970 e a LDB
A Lei de Diretrizes e Bases da Educação, promulgada em 1971 alterou bastante o ensino de música no Brasil. Surgiu a figura do professor "polivalente", formado em Educação Artística e apto (na teoria) para ensinar Artes Plásticas, Teatro, Dança e Música. Na prática nenhum curso prepara o professor para isso. A Música virou apenas mais uma "linguagem" a ser abordada nas aulas de Educação Artística, e acabou sendo reduzida a pano de fundo para apresentações e festas escolares. Vale ressaltar que nessa época estavam em moda os cursos técnicos, portanto a Educação Artísitica valorizava muito mais o ensino do Desenho e suas técnicas, que poderia formar os futuros trabalhadores da indústria então crescente. Todos os conteúdos precisavam ter uma utilidade prática, voltada para o trabalho, e passível de ser reduzida a um livro com todo o passo-a-passo. A herança que temos desse período são os livros de musicalização infantil feitos para o professor aplicar "tal-e-qual", com tarefinhas prontas, na maioria escritas, e sem muito espaço para a criatividade e o fazer musical. E também as famosas revistas do tipo "toque violão fácil".
- FASE VI - 1996 e a LDB
Uma nova lei revogou a antiga LDB e institui a disciplina de Artes na Educação Básica. Filosoficamente muito mudou, pois quem elaborou esta lei, e depois os Parâmetros Curriculares Nacionais, estava bastante entusiasmado com o escolanovismo: um movimento que pregava que a criança deveria ser a construtora do seu próprio saber. Muito se falou como era bela essa nova teoria de levar em conta o universo infantil, o saber e a criatividade, e até mesmo algumas escolinhas de arte foram criadas com o intuito de concretizar esse ideal. Mas na prática, a Educação Musical ficou meio "perdida" no meio de teorias e filosofias, e a prática de sala de aula se mostrava sem norte.
- FASE ATUAL - Nós, educadores musicais.
Pedagogicamente, vivemos hoje um momento histórico-crítico, em que podemos rever e refletir sobre a nossa própria história e buscar novos caminhos, com fundamentação teórica mas imprescindivelmente com uma prática coerente, que promova o aprendizado e o amor pela música como importante fator cultural. Felizmente nos anos 80 muitos debates começaram a ocorrer em torno da Arte-Educação no Brasil, e posicionamentos como a metodologia triângular, de Ana Mae Barbosa (fazer, analisar, contextualizar os conteúdos em arte) despertaram vários educadores musicais para a necessidade de também repensar a educação musical de nossas crianças. Pessoas como a educadora Cecília França Cavalieri abriram, com seu trabalho, novas perspetivas para o fazer do professor de música na escola. E hoje podemos entender a musicalização infantil como algo desapegado dos livros e manuais teóricos, mas fruto de uma interação música-arte-infância que se renova todos os dias.
MINHA DEFINIÇÃO
Para mim, o professor de Musicalização tem que, primeiro amar o que faz, a ponto de estar sempre buscando, aprendendo, criando novas formas de levar a música até as crianças. E fazer isso de uma forma que os alunos, pais e diretores de escolas percebam que o professor de música não é um RECREADOR, não é mero "regente de coral", não é o responsável pelas festinhas das datas comemorativas. Sim, muitas vezes somos isso também, pois o canto e a diversão devem ser constantes nas aulas, mas não somos apenas isso. Sim, muitas vezes utilizamos a flauta doce em nossas aulas, mas há centenas de outros instrumentos que as crianças podem e devem conhecer. Que podem e devem criar. Que podem e devem gostar. E acima de tudo, o professor de música é aquele que NÃO imobiliza as crianças sentadas no chão a aula toda, com a desculpa de estar com a mãos ocupadas num violão e fazendo-as "ouvir música". Porque sim, nós até paramos para ouvir música com as crianças, mas a maior parte do tempo elas estão se movimentando no intuito de criar e ouvir sua própria música, inventar seus próprios gestos. E elas nem precisam parar para entender e contextualizar. Porque as crianças são muito mais evoluídas que os adultos na capacidade de perceber: elas pensam fazendo, falam dançando, escutam cantando, criam sem lápis nem papel. Elas sabem a diferença entre imitar e reproduzir, e nós? Sim, nós até as ensinamos a imitar, mas a reproduzir jamais.
MUSICALIZAÇÃO INFANTIL é transformar aqueles assustadores livros de teoria musical em conteúdo leve e cheio demovimento para as crianças. É levar conteúdos musicais de verdade dentro de trufas de histórias coloridas, divertidas. É fazer a criança viver a música como todos os sentidos, até sentir que aquilo pode sair de dentro dela... e ser bonito! Em palavras mais acadêmicas, a musicalização infantil não visa necessariamente a formar músicos, mas amantes da música, que como tal são pessoas mais sensíveis, mais ligadas à uma vida cultural, mais humanos no meio de um sistema educacional que só valoriza o conhecimento que pode ser aferido em notas. Essa tarefa de humanização e encantamento tem objetivos musicais e pedagógicos específicos a serem alcançados, mas toda a parte teórica é papel do professor. Os alunos ficam com a diversão, e se divertem enquanto aprendem com os elementos sonoros.
Com a musicalização as crianças aprendem a manejar a linguagem e a construção semântica, que o Português irá cobrar. Aprendem elementos de raciocíonio lógico-matemático com o corpo, que vai ajudá-las a entender a Matemática. Aprendem sobre convivência social e respeito às diferenças, aprendem o valor da História, nos entremeios da qual todos os povos tiveram e tem uam produção musical a ser visitada, aprendem sobre regras de maneira a entender os benefícios delas para si mesmo e para o próximo, aprendem a descobrir que a criação pode mover o mundo, pois a musicalização isntiga seus intintos de experimentação que vão precisar para estudar as Ciências. A musicalização exercita a imaginação, trabalha o sentimento, não apenas o sentimento interior, mas o sentimento de uma época, o sentido do agora, do tempo presente. E acima de tudo, a musicalização infantil desenvolve a consciência estética, que fará a criança buscar no mundo uma harmonia e equilíbrio entre emoção e razão que não são ensinados em nenhuma outra disciplina.
MUSICALIZAÇÃO É ENSINAR A DAR UM SENTIDO MAIOR COM O SOM.
Chegar a essa consciência é fruto de uma entrega e um respeito muito grande pela criança, que é quem nos ensina os caminhos da aprendizagem. E o professor de musicalização deve estar sempre humilde para aprender com elas. Deve também estar sempre seguro da importância do que faz, e para tanto deve buscar beber constantemente nas fontes dos estudiossos da Educação Musical, que devem fazer parte do nosso planejamento e vivência em sala de aula. Professor de musicalização tem obrigação de conhecer, pelo menos, o pensamento e a obra de Orff, Kodaly, Dalcroze, Koellreutter, Murray Shafer, Suzuki. E incursionar pelos pensadores da educação musical brasileira também. Mas isso é assunto para posts futuros...
Vejamos um breve resumo com as fases pelas quais passou o ensino de música para crianças no Brasil:
- FASE I - Século XVI
Os jesuítas foram os primeiros profesores de música do Brasil. Eles utilizavam a música religiosa e o canto como forma de catequizar os índios e implantar aqui a cultura européia. Usavam músicas simples, e as crianças eram seu "alvo" preferido, pois eram ainda pessoas em formação, portanto mais flexíveis e menos críticas para aceitar aquela nova cultura.
- FASE II - Século XIX
Com a vinda de D. João VI para o Brasil, vieram também vários músicos para compor a corte do rei. A música era encarada como um ofício, que era transmitido de forma individual, do mestre ao discípulo, e tinha basicamente a função de entreter e de ornamentar as cerimônias religiosas. Em 1841 foi fundado o primeiro conservatório musical do Brasil. Conservatórios são escolas especializadas em formar músicos. Isso não era encarado como assunto de criança. E as aulas eram feitas nos moldes dos conservatórios europeus, reproduzindo a cultura de lá como a mais certa e a mais bonita.
- FASE III - Início do século XX
Começaram a regular o ensino de música no país através de leis e decretos. Mas não havia consenso: cada estado tinha sua própria legislação e exigências. Nessa época muitas mulheres buscavam estudar música como forma de se mostrar "bem educadas" e dignas de um bom casamento. Uma moça que tocasse piano era muito bem vista nos saraus então em moda. Nas escolas o ensino da música era feito através, principalmente, de manuais de teoria musical que reproduziam os livros europeus em seu conteúdo e forma, com prática de solfejo e outros assuntos bem técnicos. Não era exatamente algo divertido de fazer.
- FASE IV - 1920 - 40
Esse período é conhecimento como o período do "entusiasmo pela educação". É quando surge a musicalização infantil, e os educadores da área começam a pensar novas maneiras de ensinar música, mais efetivas, que tivessem mais a ver com a nova pedagogia infantil. Villa-Lobos era quem encabeçava um forte e organizado movimento de pensadores da Educação e Cultura musical no país. O canto orfeônico (hoje mais conhecido como canto coral) foi bastante explorado e incentivado. Faziam-se grandes festivais onde os coros das escolas se apresentavam, geralmente cantando músicas cheias de sentimento cívico. Esse movimento foi tão efetivo que até hoje muitas pessoas associam imediatamente "ensino de música" com "canto coral".
- FASE V - 1970 e a LDB
A Lei de Diretrizes e Bases da Educação, promulgada em 1971 alterou bastante o ensino de música no Brasil. Surgiu a figura do professor "polivalente", formado em Educação Artística e apto (na teoria) para ensinar Artes Plásticas, Teatro, Dança e Música. Na prática nenhum curso prepara o professor para isso. A Música virou apenas mais uma "linguagem" a ser abordada nas aulas de Educação Artística, e acabou sendo reduzida a pano de fundo para apresentações e festas escolares. Vale ressaltar que nessa época estavam em moda os cursos técnicos, portanto a Educação Artísitica valorizava muito mais o ensino do Desenho e suas técnicas, que poderia formar os futuros trabalhadores da indústria então crescente. Todos os conteúdos precisavam ter uma utilidade prática, voltada para o trabalho, e passível de ser reduzida a um livro com todo o passo-a-passo. A herança que temos desse período são os livros de musicalização infantil feitos para o professor aplicar "tal-e-qual", com tarefinhas prontas, na maioria escritas, e sem muito espaço para a criatividade e o fazer musical. E também as famosas revistas do tipo "toque violão fácil".
- FASE VI - 1996 e a LDB
Uma nova lei revogou a antiga LDB e institui a disciplina de Artes na Educação Básica. Filosoficamente muito mudou, pois quem elaborou esta lei, e depois os Parâmetros Curriculares Nacionais, estava bastante entusiasmado com o escolanovismo: um movimento que pregava que a criança deveria ser a construtora do seu próprio saber. Muito se falou como era bela essa nova teoria de levar em conta o universo infantil, o saber e a criatividade, e até mesmo algumas escolinhas de arte foram criadas com o intuito de concretizar esse ideal. Mas na prática, a Educação Musical ficou meio "perdida" no meio de teorias e filosofias, e a prática de sala de aula se mostrava sem norte.
- FASE ATUAL - Nós, educadores musicais.
Pedagogicamente, vivemos hoje um momento histórico-crítico, em que podemos rever e refletir sobre a nossa própria história e buscar novos caminhos, com fundamentação teórica mas imprescindivelmente com uma prática coerente, que promova o aprendizado e o amor pela música como importante fator cultural. Felizmente nos anos 80 muitos debates começaram a ocorrer em torno da Arte-Educação no Brasil, e posicionamentos como a metodologia triângular, de Ana Mae Barbosa (fazer, analisar, contextualizar os conteúdos em arte) despertaram vários educadores musicais para a necessidade de também repensar a educação musical de nossas crianças. Pessoas como a educadora Cecília França Cavalieri abriram, com seu trabalho, novas perspetivas para o fazer do professor de música na escola. E hoje podemos entender a musicalização infantil como algo desapegado dos livros e manuais teóricos, mas fruto de uma interação música-arte-infância que se renova todos os dias.
MINHA DEFINIÇÃO
Para mim, o professor de Musicalização tem que, primeiro amar o que faz, a ponto de estar sempre buscando, aprendendo, criando novas formas de levar a música até as crianças. E fazer isso de uma forma que os alunos, pais e diretores de escolas percebam que o professor de música não é um RECREADOR, não é mero "regente de coral", não é o responsável pelas festinhas das datas comemorativas. Sim, muitas vezes somos isso também, pois o canto e a diversão devem ser constantes nas aulas, mas não somos apenas isso. Sim, muitas vezes utilizamos a flauta doce em nossas aulas, mas há centenas de outros instrumentos que as crianças podem e devem conhecer. Que podem e devem criar. Que podem e devem gostar. E acima de tudo, o professor de música é aquele que NÃO imobiliza as crianças sentadas no chão a aula toda, com a desculpa de estar com a mãos ocupadas num violão e fazendo-as "ouvir música". Porque sim, nós até paramos para ouvir música com as crianças, mas a maior parte do tempo elas estão se movimentando no intuito de criar e ouvir sua própria música, inventar seus próprios gestos. E elas nem precisam parar para entender e contextualizar. Porque as crianças são muito mais evoluídas que os adultos na capacidade de perceber: elas pensam fazendo, falam dançando, escutam cantando, criam sem lápis nem papel. Elas sabem a diferença entre imitar e reproduzir, e nós? Sim, nós até as ensinamos a imitar, mas a reproduzir jamais.
MUSICALIZAÇÃO INFANTIL é transformar aqueles assustadores livros de teoria musical em conteúdo leve e cheio demovimento para as crianças. É levar conteúdos musicais de verdade dentro de trufas de histórias coloridas, divertidas. É fazer a criança viver a música como todos os sentidos, até sentir que aquilo pode sair de dentro dela... e ser bonito! Em palavras mais acadêmicas, a musicalização infantil não visa necessariamente a formar músicos, mas amantes da música, que como tal são pessoas mais sensíveis, mais ligadas à uma vida cultural, mais humanos no meio de um sistema educacional que só valoriza o conhecimento que pode ser aferido em notas. Essa tarefa de humanização e encantamento tem objetivos musicais e pedagógicos específicos a serem alcançados, mas toda a parte teórica é papel do professor. Os alunos ficam com a diversão, e se divertem enquanto aprendem com os elementos sonoros.
Com a musicalização as crianças aprendem a manejar a linguagem e a construção semântica, que o Português irá cobrar. Aprendem elementos de raciocíonio lógico-matemático com o corpo, que vai ajudá-las a entender a Matemática. Aprendem sobre convivência social e respeito às diferenças, aprendem o valor da História, nos entremeios da qual todos os povos tiveram e tem uam produção musical a ser visitada, aprendem sobre regras de maneira a entender os benefícios delas para si mesmo e para o próximo, aprendem a descobrir que a criação pode mover o mundo, pois a musicalização isntiga seus intintos de experimentação que vão precisar para estudar as Ciências. A musicalização exercita a imaginação, trabalha o sentimento, não apenas o sentimento interior, mas o sentimento de uma época, o sentido do agora, do tempo presente. E acima de tudo, a musicalização infantil desenvolve a consciência estética, que fará a criança buscar no mundo uma harmonia e equilíbrio entre emoção e razão que não são ensinados em nenhuma outra disciplina.
MUSICALIZAÇÃO É ENSINAR A DAR UM SENTIDO MAIOR COM O SOM.
Chegar a essa consciência é fruto de uma entrega e um respeito muito grande pela criança, que é quem nos ensina os caminhos da aprendizagem. E o professor de musicalização deve estar sempre humilde para aprender com elas. Deve também estar sempre seguro da importância do que faz, e para tanto deve buscar beber constantemente nas fontes dos estudiossos da Educação Musical, que devem fazer parte do nosso planejamento e vivência em sala de aula. Professor de musicalização tem obrigação de conhecer, pelo menos, o pensamento e a obra de Orff, Kodaly, Dalcroze, Koellreutter, Murray Shafer, Suzuki. E incursionar pelos pensadores da educação musical brasileira também. Mas isso é assunto para posts futuros...
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